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sábado, 22 de agosto de 2026

Fé sem bandeiras

 

Fé sem bandeiras

Imagem generativa: Renan Martin
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Escrito por A Redação

Como o cristão deve se comportar em relação ao voto

Felippe Amorim

Em períodos eleitorais, aquilo que deveria ser conduzido com prudência e discernimento moral frequentemente se transforma em motivo de divisão, hostilidade e desgaste espiritual. Tanto na igreja quanto no ambiente familiar, não é raro ver irmãos na fé e parentes comprometendo a convivência por causa de preferências políticas, como se a lealdade a candidatos ou projetos humanos pudesse determinar a fidelidade a Deus.

Nesse contexto, o debate deixa de ser apenas uma questão cívica e passa a afetar a comunhão, o testemunho cristão e a saúde espiritual da comunidade. O problema não está no exercício do voto, mas na maneira como o processo eleitoral pode despertar paixões, rivalidades e atitudes incompatíveis com a vida cristã.

É justamente nesse ponto que os conselhos de Ellen White se mostram profundamente atuais. Ao tratar do voto, ela não orienta o povo de Deus nem à omissão irresponsável nem ao ativismo político. Ao comentar a discussão entre irmãos acerca da participação nas eleições, ela escreveu: “Que todos eles procedam no temor de Deus!”1 Mais adiante, advertiu: “Sejam quais forem as opiniões que tenham com relação a dar seu voto em questões políticas, não devem proclamá-las pela caneta ou pela voz.”2

Dessas declarações emerge um princípio essencial: o cristão deve exercer seu direito de voto com consciência, responsabilidade e discrição, sem transformar suas convicções políticas em instrumento de agitação, disputa ou afirmação de superioridade moral.

Responsabilidade moral

Nos conselhos de Ellen White, o cristão não é chamado à omissão diante da vida pública. Ao contrário, quando estão em jogo princípios morais relevantes, ela reconheceu a legitimidade de exercer influência “a favor do que é correto e contra o erro”.

Ao relatar uma discussão entre irmãos acerca da participação nas eleições, ela escreveu que “eles acharam melhor pôr sua influência a favor do que é correto e contra o erro. Eles acham que é correto votar em favor dos homens defensores da temperança para governar nossa cidade, em vez de, por seu silêncio, correr o risco de serem eleitos homens intemperantes”.3

O contexto histórico ajuda a compreender melhor a citação. No século 19, especialmente nos Estados Unidos, o movimento de temperança ocupava lugar central no debate moral e social, promovendo a moderação – e, muitas vezes, a abstinência total do álcool – como resposta aos graves males causados pela embriaguez. Igrejas e organizações civis engajavam-se amplamente nessa causa por reconhecerem os efeitos destrutivos das bebidas alcoólicas sobre a família e a sociedade.

Assim, quando Ellen White mencionou os defensores da temperança, não se referia a uma preferência política trivial, mas a uma questão de evidente relevância moral, ligada à preservação da vida, da família e do bem-estar da sociedade.

Esse entendimento corrige um equívoco frequente: a ideia de que espiritualidade exige neutralidade absoluta diante de toda decisão pública. O que ela aprovava não era o partidarismo, mas a responsabilidade moral. O cristão pode votar quando entende que sua decisão representa apoio ao que mais se aproxima do direito e oposição ao que promove o erro.

O voto, nesse sentido, não é expressão de paixão política, mas ato de consciência. Não se trata de idolatrar candidatos, mas de reconhecer que a omissão também pode produzir consequências morais. O ponto central é claro: o cristão não deve submeter sua consciência nem ao fanatismo político nem à passividade. Toda decisão deve ser tomada no temor de Deus.

Discrição do voto

Se, por um lado, Ellen White reconhecia a legitimidade do voto como expressão de consciência, por outro, estabeleceu um limite igualmente claro: ele não deve ser convertido em instrumento de militância ou promoção de preferências políticas no meio do povo de Deus.

Seu conselho foi direto: “Sejam quais forem as opiniões que tenham com relação a dar seu voto em questões políticas, não devem proclamá-las pela caneta ou pela voz. Nosso povo deve ficar em silêncio acerca de questões que não têm relação com a terceira mensagem angélica.”4

Esse princípio corrige uma tendência recorrente em períodos eleitorais: a exposição pública de convicções políticas como se fossem extensão direta da fé. O problema não está apenas no conteúdo da opinião, mas no risco de perda do foco espiritual.

Quando questões políticas ocupam o centro das conversas e das tensões no ambiente eclesiástico, o que é secundário passa a competir com o que é essencial. Por isso, Ellen White orientou o silêncio em assuntos que não pertencem ao núcleo da missão da igreja.

O voto pode ser um legítimo ato de consciência, mas sua exposição pública pode facilmente gerar agitação, vaidade, pressão social e divisão. Quando membros da igreja anunciam suas escolhas como se fossem expressão normativa da fé, produzem confusão espiritual: o que é transitório assume aparência de definitivo, e o que é terreno passa a disputar espaço com o que é eterno.

Além disso, a exposição de preferências políticas raramente permanece neutra. Frequentemente, cria um ambiente de influência, constrangimento e polarização. Ainda que de forma indireta, estabelece-se a expectativa de que outros adotem a mesma posição, e a comunidade se fragmenta em torno de preferências humanas.

Em lugar de comunhão, instala-se a suspeita; em vez de unidade na missão, surgem facções em torno de preferências humanas. O conselho de Ellen White, portanto, revela profunda sabedoria pastoral: o cristão pode votar segundo sua consciência, mas não deve transformar isso em proclamação pública.

Assim, a escolha eleitoral pertence à esfera da responsabilidade individual diante de Deus, e não à esfera da militância verbal no ambiente da igreja. Ao exercer o dever cívico, não transforme seu voto em propaganda. Aja de acordo com sua consciência, mas com discrição. Isso preserva a liberdade de consciência, protege a unidade da igreja e impede que a política ocupe um espaço que pertence exclusivamente à verdade de Deus.

Liberdade individual

Outro conselho de Ellen White a respeito do tema é ainda mais específico. Não basta que o cristão deixe de anunciar seu voto; ele também não deve assumir para si a tarefa de persuadir outros a votarem como ele. A orientação é clara: “Mantenha secreto seu voto. Não fique achando que é seu dever insistir com todo o mundo para fazer do jeito que você faz.”5

O princípio aqui é inequívoco: o voto pertence ao âmbito da consciência individual diante de Deus, e não ao campo de controle de um irmão sobre a consciência do outro. Esse ponto é necessário porque o problema não se limita à exposição de preferências, mas à tentativa de transformá-las em norma para os demais. Infelizmente, em períodos eleitorais, muitos passam a agir como se sua avaliação tivesse caráter obrigatório, procurando recrutar, controlar e medir os outros por sua própria régua política.

Quando isso acontece, a convivência cristã é afetada. O ambiente deixa de ser fraterno e passa a ser marcado por pressão e disputa de lealdades. Em lugar de comunhão, surgem imposições; em vez de unidade, facções. O que deveria ser tratado com reserva e responsabilidade converte-se em campanha, patrulhamento e disputa de influência. Ellen White rejeitou esse comportamento com clareza.

O cristão deve buscar princípios, orar, refletir e agir no temor de Deus, mas não deve confundir sua responsabilidade pessoal com uma autorização para dirigir a consciência dos outros. Cada membro comparece diante de Deus com responsabilidade própria; cada um deve decidir com seriedade moral. Por isso, nenhum irmão deve tratar o outro como massa de manobra eleitoral.

Cidadania cristã

Os conselhos de Ellen White sobre o voto são simples, mas profundamente necessários. Eles não incentivam nem a omissão irresponsável nem o engajamento político ruidoso. O que estabelecem é um caminho de equilíbrio: o cristão pode votar quando entende que há princípios morais em jogo; deve fazê-lo com temor a Deus e senso de responsabilidade, mas não deve transformar sua escolha em propaganda pública nem assumir como missão persuadir outros a votar como ele.

Se esses princípios fossem mais respeitados, haveria menos discussões inúteis, ressentimentos, divisões entre irmãos e menor desgaste nas famílias. Muitos conflitos não nascem apenas do fato de as pessoas pensarem de forma diferente, mas da insistência em transformar preferências políticas em pauta permanente, critério de julgamento e motivo de hostilidade.

Quando isso acontece, a comunhão é ferida, a missão perde espaço e a igreja passa a refletir mais o espírito do mundo do que o espírito de Cristo. Os conselhos de Ellen White tratam exatamente desse problema, ao impedir que o processo eleitoral seja transformado em palco de exibição, pressão e disputa.

Ao mesmo tempo, esses princípios preservam duas dimensões que não podem ser sacrificadas: a responsabilidade moral e a liberdade de consciência. O cristão não deve ser manipulado pela pressão do grupo nem deve manipular os outros. Não deve ser indiferente aos problemas morais e sociais que afligem a sociedade, mas também não deve absolutizar sua opinião política.

Seu dever é agir diante de Deus com oração, prudência, discrição e fidelidade espiritual. Isso exige maturidade, pois é mais fácil gritar do que refletir, pressionar do que respeitar, militar do que agir com humildade.

No fim, a pergunta decisiva não é apenas em quem votar, mas como viver o período eleitoral de modo digno do evangelho. A resposta bíblica permanece válida: “Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31). Esse princípio também se aplica ao voto.

O cristão deve atravessar o processo eleitoral não dominado pela paixão política, pelo orgulho ideológico ou pela disputa carnal, mas orientado por um propósito superior: viver, escolher e agir para a glória de Deus. 

FELIPPE AMORIM é professor na Faculdade de Teologia do Uniaene, em Cachoeira (BA)

Referências

1 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (CPB, 2023), v. 2, p. 285.

2 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

3 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284, 285.

4 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

5 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

(Matéria de capa da Revista Adventista de agosto/2026)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Rede e a Pesca

                                        A Rede e a Pesca

PJ - Pag. 122 

"O reino dos Céus é semelhante a uma rede lançada ao mar e que apanha toda qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam para a praia e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos e separarão os maus dentre os justos. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali, haverá pranto e ranger de dentes." Mat. 13:47-50.

O lançar da rede é a pregação do evangelho. Este congrega na igreja bons e maus. Quando terminar a missão do evangelho, o juízo efetuará a obra de separação. Cristo viu que a existência de falsos irmãos na igreja motivaria que se falasse mal do caminho da verdade. O mundo difamaria o Evangelho por causa da vida incoerente de falsos professos. Mesmo os cristãos seriam induzidos a tropeçar, ao verem que muitos que levavam o nome de Cristo não eram governados pelo Seu Espírito. Havendo tais pecadores na igreja, os homens estariam em perigo de pensar que Deus lhes desculparia os pecados. Por isso Cristo ergueu o véu do futuro e ordenou a todos que notassem que o caráter e não a posição é que decide o destino do homem.

Tanto a parábola do joio, como a da rede, claramente ensinam que não haverá um tempo em que todos os ímpios se converterão a Deus. O trigo e o joio crescem juntos até à ceifa. Os peixes bons e os ruins são puxados juntamente para a margem, para uma separação final.

Essas parábolas ensinam que depois do Juízo não haverá graça. Quando findar a obra do evangelho, seguir-se-á imediatamente a separação de bons e maus, e o destino de cada classe será fixado para sempre.

Deus não deseja a destruição de ninguém. "Vivo eu, diz o Senhor Jeová, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva; convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que razão morrereis?" Ezeq. 33:11. Durante todo o período da graça Seu Espírito insta com os homens para que aceitem o dom da vida. Somente os que Lhe rejeitam a intercessão serão deixados a perecer. Deus declarou que o pecado precisa ser destruído como um mal nocivo ao Universo. Os que se atêm ao pecado hão de perecer na destruição do mesmo.

Ministério indígena

 

Ministério indígena

Pag. 5

MIRALDO FAG-TANH OLIVEIRA

Pastor relata experiências e desafios da missão entre os povos originários

MÁRCIO TONETTI

De origem guarani e kaingang, Miraldo Fag-Tanh Oliveira teve contato com a mensagem adventista em 1992, durante uma campanha evangelística de Semana Santa, e foi batizado cerca de quatro anos depois, aos 16 anos. Posteriormente, decidiu cursar Teologia e teve a oportunidade de exercer o ministério entre povos indígenas, como os karajás, na Ilha do Bananal, no estado do Tocantins. Atualmente, é pastor distrital em Mucajaí (RR). Nesta entrevista, ele aborda os desafios e as oportunidades da missão de alcançar os cerca de 1,7 milhão de indígenas que vivem no Brasil.

A chamada Janela Verde” é comparável à Janela 10/40”, no sentido de representar uma região desafiadora para a missão?

Sem dúvida, há grande diversidade de culturas, línguas e costumes entre os povos originários, além de desafios como o difícil acesso a algumas regiões e a necessidade de autorização de órgãos indigenistas para atuar nas comunidades. A evangelização exige tempo, abordagem contextualizada, preparo adequado e pessoas dispostas a viver essa missão. Como há poucos pastores oriundos dessas comunidades, dependemos, sobretudo, de voluntários que se dedicam a amar e evangelizar. Felizmente, também há esforços de entidades da igreja para incentivar jovens a estudar em nossos colégios e faculdades, a fim de que retornem às suas comunidades capacitados e, acima de tudo, com senso de missão.

Como está a presença adventista entre os povos indígenas no Brasil?

Há escassez de dados específicos sobre o tema. Segundo o último censo do IBGE, cerca de 32% dos povos originários se declaram evangélicos, o que pode indicar também um possível crescimento no número de adventistas entre os indígenas. No entanto, o trabalho da igreja junto às comunidades indígenas concentra-se, principalmente, nos estados do Amazonas, Roraima, Tocantins e Bahia, além de iniciativas desenvolvidas na União Norte-Brasileira.

Quais são os principais desafios e oportunidades para a evangelização dos povos originários?

Entre os desafios estão as questões culturais, o tempo para construir vínculos, a necessidade de materiais contextualizados e a falta de pessoas dedicadas integralmente à missão. A criação de núcleos de missões nas sedes administrativas da denominação e o envio de voluntários do projeto Um Ano em Missão são estratégias importantes, mas uma estrutura específica para os povos originários poderia ampliar o alcance. Em geral, os núcleos existentes não atuam diretamente nessa área, com exceção de iniciativas como a da ADRA Araguaia.

Recentemente, você batizou um jovem yanomami. O que mais o impactou na história dele?

Talvez ele seja um dos primeiros adventistas dessa etnia, e o que mais me impactou foi a maneira como Deus conduziu sua história. O pai dele vivia com a família em uma comunidade distante, a três dias de barco, em uma área marcada pelo garimpo. Sonhando com um futuro melhor para o filho, levou-o para morar em um povoado no município de Alto Alegre (RR). Ali, o jovem teve contato com uma família adventista, que o acolheu, apoiou e passou a estudar a Bíblia com ele. Precisamos de pessoas como esses irmãos, dispostas a dedicar a vida em favor dos povos originários. Como costumava dizer o pastor e missionário Alvin N. Allen, pioneiro no trabalho entre os índios aimarás, no Peru, e os karajás, no Brasil: “Oro para Deus enviar pessoas para resgatar as ovelhas perdidas da floresta."


Revista Adventista - Abril - 2026 - Pag. 5

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Deus sanguinário?

 

Deus sanguinário?

Pags. 21 e 22

Por que há tanta violência na Bíblia?

CLINTON WAHLEN


Essa questão surge com frequência, especialmente em relação às guerras do Antigo Testamento (cf. Deuteronômio 20:16-18) e à ideia de um inferno de chamas eternas (como alguns interpretam Apocalipse 14:9-11). Para muitas pessoas sinceras, passagens como essas parecem retratá-Lo como um tirano cruel. Quem poderia adorar um Deus assim?

Então, como devemos entender textos difíceis como esses? Inevitavelmente, a Bíblia relata histórias chocantes, muitas das quais são consequências trágicas do mal no mundo. No entanto, o que alguns classificam como passagens "genocidas" parece atribuir a responsabilidade diretamente a Deus. Como conciliar essas imagens com a afirmação bíblica de que “Deus é amor” (1 João 4:8) e que “justiça e direito são o fundamento" do Seu trono (Salmo 89:14)?

Quanto à ordem divina para exterminar os cananeus, é preciso considerar de modo mais amplo o que a Bíblia afirma sobre essa situação. Os versículos anteriores indicam que os israelitas deveriam evitar a guerra sempre que possível e, caso o conflito fosse inevitável, poupar mulheres e crianças (Deuteronômio 20:10-15). Além disso, as nações cananeias poderiam ter sido incorporadas a Israel se tivessem abandonado a idolatria, como ocorreu com Raabe. Entre os costumes abomináveis dos cananeus estavam o sacrifício de crianças – queimadas vivas em rituais –, além da prostituição cultual e do incesto.

Infelizmente, embora tenham recebido 400 anos de misericórdia (Gênesis 15:16), recusaram-se a abandonar suas práticas perversas e ainda lutaram contra o povo de Deus. Se permanecessem na terra, isso teria comprometido o plano divino de fazer de Israel uma luz para as nações. Tanto a história quanto a arqueologia indicam que os povos que continuaram em Canaã se tornaram uma fonte persistente de tentação e apostasia.

Deus diz: "Não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva” (Ezequiel 33:11). Ele não deseja "que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). Isso incluía não apenas os cananeus, mas toda pessoa que já viveu ou viverá. Nos dias de Noé, o Espírito do Senhor apelou durante 120 anos aos habitantes da Terra, convidando-os ao arrependimento, para que não perecessem no Dilúvio que estava por vir.

A Bíblia, quando lida corretamente, indica que os ímpios serão totalmente destruídos e que o oposto da vida eterna não é o tormento eterno, mas a morte – “o salário do pecado” (Romanos 6:23) - aquilo que, em outros textos, é chamado de "segunda morte", no lago de fogo (Apocalipse 21:8). Mais impressionante ainda é que Deus Se dispôs a oferecer Seu Filho como sacrifício, a fim de salvar os pecadores (João 3:16). Dessa forma, o mal não será tolerado para sempre em um cenário de tormento eterno, mas será definitivamente erradicado, quando Deus puser fim à existência daqueles que se recusam a aceitar a vida que Ele oferece.

Hoje, existem muitas vozes tentando nos dizer o que é justo, bom e correto. No entanto, independentemente do que os críticos possam afirmar, somente o Deus da Bíblia reflete perfeitamente esses ideais.

CLINTON WAHLEN é diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica


Revista Adventista - Abril - 2026 Pag 21, 22

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Em obras

 

Em obras

Pag. 2

O Senhor não abandona o trabalho que começou em você

WELLINGTON BARBOSA


Era o último dia do retiro de verão. Em poucos minutos, eu faria o devocional de despedida dos acampantes. De repente, uma jovem, membro da equipe organizadora do evento, me abordou: “Pastor, a Duda [pseudônimo], uma adolescente da igreja, está com uma dúvida. Você poderia conversar com ela?"

“Claro! Qual é a dúvida?", respondi imediatamente. A jovem titubeou e disse: “Ah, parece que um amigo dela, membro de outra igreja adventista, disse-lhe que, depois do batismo, ela não deveria mais pecar. Ela está lutando com isso, pastor."

Naquele momento, olhei em volta para localizar a Duda. Uma adolescente humilde, tímida e bem-intencionada, que carregava o peso de uma incerteza que alguém havia semeado em seu coração. Eu não tinha muito tempo disponível antes de assumir o púlpito para responder a essa inquietação, mas Deus me impressionou a entregar outro sermão em lugar daquele que pretendia pregar. Uma mensagem que tem feito a diferença em minha vida.

Os primeiros oito capítulos da carta de Paulo aos Romanos apresentam a jornada do ser humano em direção à plenitude da salvação. A primeira estação, diagnóstico (Romanos 1 a 3), constata nossa condição, "pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Romanos 3:23). Se dependêssemos de nós mesmos para a salvação, estaríamos perdidos. No entanto, a segunda estação, solução (Romanos 4 e 5), aponta para o único meio de ser reconciliados com o Pai: "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus" (Romanos 5:1).

A presença de Cristo confere novo propósito para aquele que O aceita. Essa mudança de rumo conduz à terceira estação, aliança (Romanos 6), ponto no qual se dá testemunho público da fé nas águas do batismo. O apóstolo escreveu: "Fomos sepultados com Ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida" (v. 4).

Paulo reconhecia que a nova condição, de morte para o pecado e vida para Deus, não implicava impecabilidade, mas levava a outra estação, a do conflito entre naturezas (Romanos 7). "Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (v. 22-24).

Se o argumento paulino acabasse nesse ponto, seríamos as pessoas mais infelizes do mundo. Contudo, Romanos 8 apresenta a estação que antecede a glorificação: a vida no Espírito. De fato, o apóstolo começou afirmando que o segredo para a vida plena é estar em Cristo (v. 1). E isso só ocorre quando vivemos segundo o Espírito (v. 4). É Ele quem nos sela como propriedade divina (v. 9), garante nossa ressurreição (v. 11), atesta nossa filiação (v. 15), nos enche de esperança (v. 23-25) e age como elo de comunicação entre nosso coração e o Céu (v. 26, 27). Ou seja, a presença do Espírito Santo e Sua obra contínua de santificação não garante impecabilidade, mas o amadurecimento espiritual que nos leva à expressão visível do amor de Deus.

Quando terminei o devocional, procurei a Duda para conversar. Ela sabia que o sermão havia sido direcionado para atender à sua inquietação. Então perguntei: “Duda, você entendeu a mensagem?” Com olhos marejados e cheia de gratidão, aquela adolescente me respondeu: “Sim, pastor. É degrau a degrau, pouco a pouco, até a volta de Jesus.”

É isso! Conforme Paulo escreveu: “Estou certo de que Aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1:6). Como eu gostaria que todos compreendessem essa verdade maravilhosa!

WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista


Revista Adventista - Abril 2026 Pag. 02

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