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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Cristianismo, política e liberdade

 

07 outubro 2026

Cristianismo, política e liberdade

Klemens Rabelo


Para quem é jovem e deseja um mundo mais justo, essa busca é legítima e merece reflexão. A juventude cristã é chamada a olhar para uma sociedade na qual a dignidade humana seja respeitada. A Bíblia também ensina que a busca pela justiça precisa caminhar ao lado da verdade, da responsabilidade e da liberdade.
Para isso, convém olhar para as ideias políticas com serenidade. O cristão tem grande responsabilidade na eleição dos governantes. Antes de escolher uma posição, é necessário perguntar: a ideia desse candidato é compatível com os princípios ensinados por Cristo? O que a história revela sobre sua posição?

A Bíblia reconhece a propriedade privada e condena o roubo e a cobiça dos bens alheios. O oitavo mandamento é direto: “Não furtarás” (Êxodo 20:15). O décimo também protege aquilo que pertence ao próximo. Ao mesmo tempo, as Escrituras ensinam generosidade e cuidado com os necessitados. O cristianismo, portanto, apresenta duas responsabilidades que precisam caminhar juntas: respeitar aquilo que pertence ao outro e socorrer quem precisa de ajuda.
O trabalho ocupa um lugar central na visão bíblica. Paulo advertiu os cristãos de Tessalônica: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Tessalonicenses 3:10). A passagem condena a ociosidade voluntária e exige o esforço individual. A solidariedade cristã requer uma postura ativa da pessoa diante da própria existência.
Esse princípio também ajuda a refletir sobre a liberdade econômica. A capacidade de trabalhar, empreender, produzir e administrar os próprios recursos está relacionada à responsabilidade pessoal. A Constituição brasileira também reconhece a importância da livre iniciativa, da propriedade privada, do trabalho e da redução das desigualdades sociais. O Estado possui responsabilidades importantes diante da pobreza e das desigualdades, mas a ação estatal precisa ser examinada com cuidado. Uma sociedade justa precisa proteger os vulneráveis sem eliminar a liberdade, a iniciativa e a responsabilidade das pessoas de promoverem o próprio sustento.
Esse ponto merece reflexão quando analisamos ideias socialistas ou comunistas. Essas correntes apresentam propostas para a organização econômica e social. Defendem ampla participação do Estado na economia; especialmente as linhas marxistas e comunistas, propõem a extinção da propriedade privada dos meios de produção e uma transformação radical da sociedade.
O comunismo revolucionário produziu experiências históricas que precisam ser conhecidas. A União Soviética, a China de Mao Tsé Tung e o Camboja sob o Khmer Vermelho estiveram associados a regimes autoritários, perseguições políticas, restrições severas às liberdades e mortes em grande escala, apenas por discordarem politicamente. Também houve perseguição religiosa em diferentes períodos e países. Conhecer essa história permite compreender que determinadas ideias, quando combinadas com concentração extrema de poder, podem produzir consequências terríveis. É inconcebível que o Estado, ou líderes políticos perseguem, torturam, matam ou exilam seus concidadãos. Os regimes totalitários extremam essas práticas, sufocam a liberdade de expressão e eliminam a oposição política.
Karl Marx também formulou uma crítica severa à religião, resumida na conhecida expressão de que ela seria o “ópio do povo”. É óbvio que a fé cristã não depende do Estado, de um partido ou de um sistema econômico. A Igreja pertence a Cristo. Mas o cristão deve conhecer essa crítica marxista para rebatê-la com firmeza.
A mesma prudência vale para as questões morais. Para o cristão, a proteção da vida, a família, a educação dos filhos, a liberdade religiosa e a dignidade humana não são apenas bandeiras partidárias. São temas que envolvem convicções morais profundas. Por isso, precisam ser examinados à luz das Escrituras e também das propostas concretas de cada candidato e partido.
Um cristão pode ter uma posição política, mas precisa saber por que a possui. Rejeite opiniões prontas das redes sociais. É necessário conhecer os argumentos, verificar os fatos e comparar as propostas com os princípios que orientam sua consciência, partindo do princípio de que a consciência cristã é norteada pela Bíblia. Decisões, alianças, propostas e posicionamentos que entrem em conflito com suas convicções cristãs devem ser examinados com a mesma liberdade. A fidelidade a Cristo exige independência em relação a qualquer partido.
Essa independência é importante porque nenhum político merece ocupar, na consciência de um cristão, o lugar que pertence a Deus. Um cristão pode admirar determinadas propostas de um governante, discordar de outras, reconhecer seus acertos e apontar seus erros. Evite transformar uma pessoa em símbolo de salvação nacional. A Bíblia já advertia contra essa tendência. Os cristãos de Corinto começaram a criar grupos em torno de líderes humanos: “Eu sou de Paulo”, “eu, de Apolo” e “eu, de Cefas”. Paulo respondeu perguntando: “Acaso Cristo está dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).
A advertência continua atual. Quando um líder político passa a ser tratado como alguém infalível, a política deixa de ser analisada racionalmente. O eleitor passa a defender qualquer atitude do seu líder, mesmo quando ela contradiz princípios que anteriormente considerava importantes. Lyle H. Rossiter, em A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Política, Ed. Vide Editorial, procura interpretar determinados comportamentos políticos a partir da psicologia. Para ele a esquerda radical opera como doença mental coletiva.
O cristão precisa conservar sua liberdade de consciência. Pode votar em determinado candidato, apoiar determinado partido ou defender determinada proposta. Mas sua lealdade maior permanece com Cristo. Quando um líder político determina que seus seguidores defendam tudo aquilo que ele faz, o cristão deve parar e pensar. Quando um político é apresentado como a única esperança para o país, também deve haver cautela.
Por isso, antes de formar uma opinião sobre qualquer candidato, procure suas propostas originais, seu histórico de decisões e votações, suas declarações públicas e os resultados de suas administrações. Compare aquilo que ele promete com aquilo que efetivamente realizou. Examine também suas alianças políticas e as consequências de suas decisões. Faça isso com todos.
Aplique o mesmo critério para o candidato de sua preferência e para o seu adversário político. Se uma determinada conduta é errada quando praticada por um político da esquerda, ela também deve ser considerada errada quando praticada por alguém da direita. A verdade não muda conforme a cor partidária.
As redes sociais tornam esse exercício ainda mais importante. Seus algoritmos podem criar ambientes nos quais ouvimos apenas aquilo que confirma nossas próprias convicções. Assim surgem as bolhas políticas, nas quais cada grupo acredita possuir toda a verdade e enxerga o outro como ignorante ou mal-intencionado. Romper essa bolha exige coragem.

Leia a matéria completa, no l blog do autor 
veja o link abaixo
https://www.rabelo.blog.br/2026/10/cristianismo-politica-e-liberdade.html?m=1#more

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A santa ceia foi instituida antes ou depois do lava-pés?

 

A santa ceia foi instituida antes ou depois do lava-pés?

Pags. 1 e 2











Como esta questão fosse suscitada já por diversas vezes, vamos consideral-a mais detidamente.

Algumas versões, como por exemplo a ingleza e a portugueza, traduzem João 13:2 como segue: "E acabada a ceia,*) tendo já o diabo insinuado no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o trahisse... levantou-se (Jesus) da ceia, tirou os vestidos e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou agua numa bacia, e começou a lavar os pés aos discipulos." Muitos tiraram dahi a conclusão de que Jesus procedera ao lavamento dos pés depois da ceia, e que assim cumpria fazer tambem.

Admitte-se geralmente que os evangelhos foram escritos na seguinte successão: o de Mattheus, cerca de seis annos depois da resurreição; o de Marcos 10 annos depois da resurreição; o de Lucas 28 annos depois da resurreição e o de João 63 annos depois da resurreição. Dahi vê-se que o evangelho de João foi escrito muito tempo depois dos outros evangelhos. João dedica tambem a maior parte do seu evangelho a acontecimentos que occorreram na ultima semana da vida de Jesus sobre a terra. Como João escrevesse o seu evangelho por ultimo, o Espirito de Deus estimulou-o a escrever justamente aquellas coisas que podiam ser particularmente uteis á egreja e que os evangelhos anteriores haviam passado em silencio. Assim por exemplo Matheus, Marcos e Lucas não fazem menção do lava-pés, ao passo que todos os tres tratam minuciosamente a santa ceia. João, ao contrario, não faz nenhuma menção da ceia, mas se extende largamente sobre o acto do lava-pés. Onde deve collocar-se o lava-pés?

*) Luthero traduz: "E na ceia (isto é, na ocasião da ceia)" ao passo que a Miniaturbibel da essa passagem nestes termos: "E havendo chegado a ceia (isto é, a hora da ceia)."

Depois de terminado este acto e os discipulos estarem instruidos a respeito do mesmo, lemos no versiculo 21: "Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espirito, e testificou e disse: Na verdade vos digo que um de vós me ha de trahir."

Si compararmos agora Matth. 26:20. 21 e Marc. 14:17. 18, com a passagem supracitada, vemos que as palavras citadas por João no versiculo 21 e que ali foram proferidas depois de Jesus haver lavado os pés aos seus discipulos, foram ditas antes da santa ceia, porque em Mattheus e em Marcos a distribuição da ceia propriamente dita, isto é, da ceia commemorativa dos soffrimentos e da morte de Jesus, tem logar depois de Jesus haver proferido as palavras: "Em verdade vos digo que um de vós me ha de trahir." Logo é claro que o lava-pés precedeu a distribuição da ceia.

"E houve tambem contenda entre elles, sobre qual delles parecia ser o maior." Cada qual aspirava em seu coração á principal posição no reino de Deus. O pedido de João e de Thiago para se assentarem um á direita e outro á esquerda de Christo no seu reino havia provocado escandalo entre os outros discipulos. Quando estavam pois reunidos no cenaculo os corações dos discipulos se achavam penetrados de inveja. Um outro motivo de contenda se havia manifestado entre elles. Era costume na occasião da paschoa que um servo lavasse os pés aos hospedes, e tal disposição fôra tambem tomada aqui. O jarro, a bacia e a toalha ahi se achavam, faltava porém o servo para desempenhar esse serviço, sendo por isso o dever dos discipulos se encarregarem do mesmo. Cada um delles porém estava resolvido a não exercer o mister de um servo. Recusavam humiliar-se. Como poderia Jesus valer a essas pobres almas para que Satanáz não conseguisse uma victoria cabal sobre ellas? Como poderia Elle mostrar-lhes que a verdadeira grandeza se manifesta no exercicio da caridade e da humildade? Como deveria Elle suscitar o verdadeiro amor em seus corações? Até que elles fossem trazidos a uma condição de humildade e de amor, elles não estariam promptos a participar nem da paschoa nem da ceia que Jesus estava a ponto de instituir... Seus corações tinham de ser purificados.

Os discipulos nem siquer menção faziam de se servirem uns aos outros. Jesus esperou algum tempo a ver o que fariam. Então levantou-se da mesa. Tirando a capa, que poz de um lado, pegou da toalha e cingiu-se. Surprenhendidos, os discipulos O contemplaram, curiosos do que pretendia fazer. "Então deitou agua numa bacia, e começou a lavar os pés aos discipulos, e a enxugar-lh'os com a toalha com que estava cingido." Este acto de Jesus abriu os olhos aos seus discipulos. Seus corações sentiram-se humiliados e contrictos. A tacita censura era delles cabalmente comprehendida. O orgulho e o egoismo haviam determinado contenda e inveja, mas tudo isto Jesus fez desaparecer lavando-lhes os pés. Olhando então sobre elles, Elle pôde dizer com verdade: "Vós estaes limpos."

O lavamento dos pés por parte de Jesus implicava mais do que uma simples ablução. Jesus com este acto instituia uma ceremonia religiosa que devia ser observada pelos seus discipulos para que tivessem sempre presente os ensinamentos de Jesus acerca da humildade e da caridade. Era a preparação instituida por Jesus para a santa ceia. Emquanto o orgulho, a inveja e a contenda dominam no coração este não pode ter communhão com Jesus, e não está preparado para gozar da communhão do seu amor e do seu sangue. Por isso Jesus ordenou que fosse observada em tal occasião a memoria de sua humilhação.

Dahi poder-se-á vêr claramente: primeiro, o que é propriamente o fim do lava-pés; segundo, quando deve ser praticado; e, terceiro, que elle só preenche o seu fim sendo observado antes da santa ceia.

F. W. Spies.


Revista Adventista - Fevereiro 1909 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Riscos silenciosos

 

Riscos silenciosos


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Escrito por A Redação

Os perigos que ameaçam a perda da identidade religiosa

Nas últimas décadas, pesquisas no campo da sociologia da religião e da comunicação têm apontado mudanças graduais na forma como movimentos religiosos vivenciam e comunicam sua identidade. Essas transformações raramente se iniciam no âmbito doutrinário; antes, emergem no plano das práticas cotidianas, dos hábitos culturais e da maneira como símbolos tradicionais passam a ser reinterpretados.1

Estudiosos da experiência religiosa contemporânea têm mostrado que, à medida que as comunidades experimentam avanços socioeconômicos, maior acesso à educação e ampliação de seu repertório cultural, ocorre uma transformação na maneira pela qual seus membros se percebem e se relacionam com a sociedade ao redor. A fé permanece como referência central, mas sua expressão visível passa por ajustes – por vezes quase imperceptíveis – que, ao longo do tempo, produzem mudanças significativas.2

Nesse contexto, certos comportamentos antes compreendidos como expressões claras da identidade de uma denominação passam a ser vistos como opcionais. O que outrora funcionava como norma para uma comunidade religiosa começa a ser tratado como escolha pessoal, deslocando, assim, o eixo da identidade do plano coletivo para o individual.

Entre esses indícios de transformação encontra-se, de modo cada vez mais perceptível, a forma como o corpo e a aparência são compreendidos. O uso de alguns adereços, por exemplo, passa a ser interpretado como um aspecto meramente cultural, por vezes considerado até irrelevante. A isso se somam mudanças no padrão de vestimenta, na maneira pela qual as pessoas se apresentam em ambientes públicos e na forma como se expõem nas mídias sociais. Nesse contexto, muitas vezes a imagem é usada para gerar engajamento e visibilidade, nem sempre em harmonia com os princípios bíblicos e a modéstia cristã. Esse comportamento tem se tornado cada vez mais comum, como resultado de uma assimilação progressiva da cultura contemporânea.

Do ponto de vista sociológico, essas práticas funcionam como sinais comunicacionais: revelam como a identidade religiosa está sendo renegociada no espaço público e virtual, confirmando que a mudança não ocorre apenas no discurso, mas também na linguagem visual do pertencimento.3 Essas transformações, em geral, não são acompanhadas de rejeição explícita das crenças fundamentais. Muitos continuam afirmando lealdade à Bíblia, à missão da igreja e às suas doutrinas, enquanto adotam um estilo de vida nem sempre coerente com tais convicções.

Isso confirma um padrão observado nos estudos sobre religião e mudança social: as práticas externas tendem a se transformar antes que as crenças centrais sejam formalmente revistas. O risco reside no fato de que, com o tempo, a prática molda a percepção, e a percepção redefine o significado da própria identidade. Esse fenômeno fragiliza a transmissão da identidade religiosa às gerações seguintes.

Sinal de alerta

Por isso, o apóstolo Paulo exortou: “E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem que Deus os transforme pela renovação da mente” (Romanos 12:2). A conformação, nesse contexto, não se limita a valores abstratos, mas envolve também padrões visíveis de vida e testemunho.

A história bíblica confirma esse princípio. Israel raramente perdeu sua identidade por negar explicitamente a própria fé. A erosão começou quando assimilou costumes, símbolos e práticas das nações ao redor (Juízes 2:11-13). A mudança externa precedeu a decadência espiritual.

Ellen White parece ter reforçado essa percepção ao afirmar: “Deus vê que a ruína do caráter é precedida frequentemente pela transigência com o orgulho e a vaidade.”4 Não se trata apenas de aparência, mas da preservação de uma mentalidade espiritual distinta. Movimentos religiosos que deixam de valorizar com rapidez seus sinais de identidade acabam, aos poucos, perdendo clareza quanto a quem são e para que existem.

O perigo, portanto, não reside em uma prática isolada, mas no acúmulo silencioso de pequenas redefinições que, ao longo do tempo, vão redesenhando a identidade do movimento. Quando os sinais externos deixam de comunicar significado, a comunidade passa a depender quase exclusivamente de afirmações conceituais para sustentar aquilo que a distingue.

A Igreja Adventista sempre defendeu que a mensagem profética deve ser acompanhada por um estilo de vida coerente. A urgência escatológica nunca foi apenas uma doutrina, mas um modo de existir. Ignorar os sinais desse processo de transformação pode gerar consequências silenciosas, porém profundas. À medida que essas mudanças se tornam comuns, novas expectativas se estabelecem e os referenciais comunitários se redefinem, de modo que, pouco a pouco, o centro da identidade acaba sendo deslocado.

O alerta de Cristo permanece atual: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lucas 16:10). A fidelidade à identidade do movimento, na vida cotidiana, sempre foi compreendida, no adventismo, como parte do preparo para o encontro com Cristo.

Esse não é um chamado ao legalismo nem à vigilância punitiva, mas à consciência espiritual e profética. Preservar essa identidade não significa rejeitar o diálogo com a cultura, mas discernir cuidadosamente quais adaptações fortalecem a missão e quais, silenciosamente, a enfraquecem.

Os riscos da transformação da identidade quase nunca se impõem de maneira repentina. Eles avançam quando a igreja deixa de refletir não apenas sobre o conteúdo de sua fé, mas também sobre a maneira como essa fé está sendo expressa e percebida no mundo em que vive. 

DANIELSON ROALY é pastor em Laranja da Terra (ES)

Referências

1 Robert Wuthnow, The Restructuring of American Religion (Princeton University Press, 1988).

2 Malcolm Bull e Keith Lockhart, Seeking a Sanctuary (Indiana University Press, 2007).

3 Grace Davie, Religion in Modern Europe (Oxford University Press, 2000).

4 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 4, p. 565.

(Artigo publicado na Revista Adventista de abril/2026)

A lição que ficou

 

A lição que ficou


Imagem generativa: Renan Martin
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Escrito por Wellington Barbosa

A questão das origens ultrapassa o campo da ciência e alcança os fundamentos da fé

Uma das profissões homenageadas no mês de outubro é a de professor. Em cada fase da minha vida acadêmica, pelo menos um deles se destacou. Guardo na memória muitos ensinamentos importantes que recebi, mas, acima de tudo, momentos que foram cruciais para minha jornada de crescimento espiritual.

Conheci o evangelho em um colégio adventista, na década de 1990. A atenção dos professores, o ambiente escolar e as semanas de oração foram fundamentais para que eu tivesse uma visão geral da mensagem adventista. Contudo, em minhas indagações adolescentes, algumas coisas ainda pareciam não se encaixar. Como conciliar o relato bíblico da criação com o conteúdo evolucionista apresentado, especialmente, nos livros de Biologia? Foi nesse contexto que entrou em cena um professor que fez diferença justamente quando eu precisava tomar uma decisão.

Era um jovem que vinha de uma experiência em um colégio do Noroeste do Brasil e assumia a turma no segundo semestre daquele ano letivo. Na primeira aula, algumas coisas me chamaram atenção: ele confessou ser “viciado em pó de giz” e amar a profissão, tinha um temperamento agradável e uma caligrafia perfeita, além de revelar sua paixão pelo basquetebol. Naquela escola, isso contava muito!

Com sabedoria, conhecimento e “jogo de cintura”, o jovem professor conquistou o respeito da classe e avançou com tranquilidade pelos temas e termos peculiares das ciências biológicas. Até que chegou o assunto espinhoso: a origem da vida e o evolucionismo. Naquele ponto, para mim, não estava em jogo apenas assimilar o conteúdo curricular, mas responder a uma pergunta com profundas implicações espirituais.

De maneira detalhada, ele explicou cada ponto do argumento evolucionista, oferecendo-nos o conhecimento necessário para enfrentar o tema no vestibular. Ao mesmo tempo, apresentou contrapontos científicos que enfraqueciam a tese darwiniana e favoreciam o relato bíblico de uma criação intencional e literal realizada por Deus.

Na última aula sobre o tema, ele propôs que avaliássemos o peso das evidências e considerássemos o criacionismo um modelo conceitual, plenamente convergente com o ensino das Escrituras. Para mim, aquilo foi suficiente para escolher uma posição. A experiência não apenas respondeu às minhas dúvidas, mas também solidificou a decisão de ser batizado.

O tema das origens não é periférico na teologia adventista. Na realidade, é central e deve ser compreendido à luz das Escrituras e da verdadeira ciência. Ao aceitar uma interpretação evolucionista das origens, o cristão se depara com uma série de questões que atingem os fundamentos do plano da salvação. Se a morte já existia antes do pecado e fazia parte do processo criativo de Deus, o que significa a queda? Se não houve uma queda histórica, por que precisamos de redenção? E, se o pecado não entrou na história como a Bíblia descreve, o que exatamente Cristo veio restaurar?

Infelizmente, nem todos os nossos jovens têm a oportunidade de contar com professores como o que tive no Ensino Médio, e muitos membros da igreja foram batizados sem refletir profundamente sobre a questão das origens. Por isso, a Igreja Adventista promove, em outubro, o Sábado da Criação. Em apoio à programação das congregações locais, a RA traz, nesta edição, uma avaliação crítica do chamado evolucionismo teísta. Mais do que uma discussão sobre como a vida começou, essa é uma questão que envolve nossa compreensão de Deus, da queda, da morte e do plano da salvação.

WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista

(Editorial da Revista Adventista de outubro/2026)

sábado, 3 de outubro de 2026

Consolador

 

Consolador

Pags. 8 a 12


Compreendendo o Espírito Santo à luz dos escritos de Ellen White

Merlin Burt 


A doutrina de Deus é um ensinamento cristão fundamental. A compreensão bíblica dos adventistas sobre a Trindade nos auxilia a entender a natureza, os atributos e o caráter divino. Nas últimas décadas, houve um volume significativo de pesquisas sobre a história da compreensão da Divindade pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, especialmente em relação ao papel de Jesus nela. Contudo, há menos textos disponíveis sobre a relação entre Ellen White e a compreensão adventista a respeito do Espírito Santo. Este artigo examina a interpretação da autora sobre o Espírito Santo, ressaltando o impacto de suas afirmações na compreensão adventista e avaliando a veracidade de suas declarações mais explícitas sobre a natureza do Espírito Santo.

DE 1844 ATÉ OS ANOS 1890

Ellen White escreveu amplamente sobre a pessoa do Espírito Santo, mencionando-O quase tão frequentemente quanto à pessoa de Jesus. Desde seus primeiros escritos e ao longo de sua vida, ela seguiu três orientações significativas referentes ao Espírito Santo e à Divindade. Primeiramente, destacou a personalidade de Deus Pai e de Jesus. Entre 1845 e 1846, houve um segmento dos adventistas mileritas que afirmava que Cristo havia retornado de forma espiritual em 22 de outubro de 1844. Esse grupo também espiritualizava a ressurreição, o Céu, a Nova Jerusalém, a Nova Terra, bem como o Pai e a Jesus. Em 1846, Ellen White escreveu sobre a afirmação da personalidade do Pai e de Jesus: "Vi um trono, e nele estavam sentados o Pai e Seu Filho, Jesus Cristo. Olhei fixamente o semblante de Jesus e admirei Sua adorável pessoa. [...] Perguntei a Jesus se Seu Pai tinha forma semelhante à Dele; Ele disse que sim, mas eu não podia contemplá-Lo.”¹

Tiago White e José Bates, outros cofundadores da Igreja Adventista, também se opuseram à visão espiritualizada e, por meio da imprensa, defenderam a personalidade de Jesus e do Pai.² Em segundo lugar, assim como os adventistas em geral, Ellen White entendia o Espírito Santo de maneira prática e demonstrável. A obra do Espírito Santo era evidente e dinâmica em sua experiência cristã e seu ministério. Ela teve centenas de visões e sonhos proféticos e frequentemente vivenciou bênçãos extraordinárias por meio da ação do Espírito Santo. Nos primeiros anos de seu ministério profético, Ellen White enfrentou críticas de pessoas que acreditavam que suas visões eram fruto de hipnotismo e que não havia Espírito Santo. Isso lhe causou uma “terrível angústia, quase ao ponto do desespero”. Ela escreveu: "Muitos queriam fazer-me crer que não havia Espírito Santo e que tudo quanto os homens santos de Deus haviam experimentado não era senão mesmerismo ou enganos de Satanás.”³

Por fim, seu entendimento sobre o Espírito Santo foi fundamentado e centrado na Bíblia. Assim como outros pioneiros adventistas, ela era, antes de tudo, uma estudiosa das Escrituras, tomando cuidado especial para não se afastar da Bíblia em suas descrições do Espírito Santo.

Em 1891, Ellen White respondeu a um homem que pensava que o Espírito Santo era, de fato, o anjo Gabriel, e que os 144 mil seriam judeus que aceitariam Jesus como Messias. Após apresentar princípios fundamentais de interpretação bíblica, ela tratou do tema: "Suas ideias sobre os dois assuntos mencionados não se harmonizam com a luz que me foi dada por Deus. A natureza do Espírito Santo é um mistério não claramente revelado, e você jamais será capaz de explicá-lo a outros, porque o Senhor não lhe revelou." Ela prosseguiu, mencionando João 14:16: "Isso se refere à onipresença do Espírito de Cristo, chamado Consolador." Então admitiu as limitações de seu próprio entendimento: “Há muitos mistérios que não procuro compreender nem explicar; eles são muito elevados para mim e para você. Sobre alguns desses pontos, o silêncio é ouro.”⁴

Na falta de um discernimento especial sobre a natureza e a personalidade do Espírito Santo, ela se manteve firme com as Escrituras e, ao contrário de outros pioneiros adventistas, não definiu a personalidade do Espírito Santo. Isso, no entanto, mudaria em breve.

A PARTIR DOS ANOS 1890

Dois anos depois, em 1893, ela escreveu: “Geralmente, muito pouco tem sido feito da obra de influência do Espírito Santo sobre a igreja. [...] O Espírito Santo é o Consolador em nome de Cristo. Ele personifica Cristo, porém é uma personalidade distinta."⁵

Em 1896, ela mencionou as palavras de Jesus em João 16:7 e 8 e fez sua declaração mais explícita sobre o Espírito Santo como uma Pessoa da Divindade: “O poder do mal estivera se fortalecendo por séculos, e a submissão das pessoas a esse cativeiro satânico era alarmante. O pecado só poderia ser resistido e vencido por meio da poderosa atuação da terceira pessoa da Divindade, a qual viria não com energia modificada, mas na plenitude do poder divino.”⁶ Não há evidências de que ela tenha recebido alguma visão especial que a motivasse a escrever de forma mais explícita sobre o Espírito Santo. No entanto, como mensageira do Senhor, ela se tornou bastante específica sobre esse assunto na década de 1890. Ao longo de sua vida, ela manteve seu apoio à personalidade e à plena divindade do Espírito Santo.⁷

Por exemplo, Ellen White costumava mencionar João 14–16 e ao Consolador levando a presença de Jesus ao fiel. Ela prosseguiu com esse assunto ao mesmo tempo em que apresentava o Espírito Santo como a terceira Pessoa da Divindade. Ela escreveu: "Embora nosso Senhor tenha ascendido da Terra ao Céu, o Espírito Santo foi designado como Seu representante entre os seres humanos.” Ao citar João 14:15-18, prosseguiu: "Impedido pela humanidade, Cristo não podia estar pessoalmente em todo lugar; portanto, era para total benefício deles que deveria deixá-los, ir para o Pai e enviar o Espírito Santo como Seu sucessor na Terra."⁸

Ellen White se sentia à vontade com a tensão entre o fato de o Espírito Santo ser uma Pessoa e, ao mesmo tempo, representante de Jesus. Uma particularidade da Trindade bíblica é que cada Pessoa indica ou representa as outras (Mateus 3:17; 17:5; Marcos 1:11; 9:7; Lucas 3:22; 9:35).

"ISTO" E "ELE"

Em 1936, H. C. Lacey afirmou que sua série de estudos bíblicos matinais, apresentada em 1895 durante a reunião campal de Armidale, e sua exposição em 1896, em um congresso em Cooranbong, Austrália, influenciou Ellen White a aceitar a personalidade do Espírito Santo. Lacey levantou a hipótese de que, antes da apresentação de seus estudos, ela não tinha utilizado o termo “Pessoa” nem se referido ao Espírito Santo com o pronome pessoal "Ele”⁹.

Contrariando a sugestão de Lacey, uma avaliação das declarações de Ellen White revela que ela empregou o termo "Pessoa” ao se referir ao Espírito Santo já em 1893. Contudo, antes e depois de afirmar explicitamente a personalidade do Espírito Santo, ela empregou os pronomes “Isto" e "Ele” de forma intercambiável.

Em 1884, ela afirmou: “O Espírito Santo exalta e glorifica o Salvador. É sua obra apresentar Cristo.”¹⁰ Em 1891, escreveu sobre "o Espírito Santo trabalhando em nosso coração. E continuou: "[Ele] toma as coisas de Deus e as apresenta de nova maneira à nossa mente”¹¹ Em uma declaração proferida em 1898, ela expressou de forma clara a personalidade do Espírito Santo: "Quando o Espírito de Deus toma posse do coração, transforma a vida.”¹² Em 1900, declarou: “Em verdade, o Espírito Santo saiu a todo o mundo; Ele atua no coração das pessoas em toda parte."¹³

O livro O Desejado de Todas as Nações não só contribui para a compreensão da personalidade do Espírito Santo, como também ensina de forma clara a eternidade de Jesus e Sua completa igualdade com o Pai. A afirmação: “Em Cristo, há vida original, não emprestada, não derivada”,¹⁴ ao lado de outras declarações sobre a divindade de Jesus, auxiliou muitos adventistas a reavaliar as Escrituras a fim de entender o papel de Cristo na Divindade.

VERACIDADE DAS DECLARAÇÕES

Há quem acredite na autoridade profética dos escritos de Ellen White, mas rejeite a personalidade do Espírito Santo e seu papel na Trindade. No entanto, esses textos colocam essas pessoas em situação complicada. Em resposta, geralmente alegam que secretárias ou editores de Ellen White incluíram as declarações sem o conhecimento dela. Em 2006, Tim Poirier, que foi diretor associado do Patrimônio Literário de Ellen G. White, publicou uma monografia esclarecedora na qual rastreou essas afirmações até sua fonte original.

Rascunhos originais de pelo menos quatro declarações de Ellen White estão disponíveis.¹⁵ Outros documentos podem ser acessados na forma impressa original, contendo anotações manuscritas nas páginas.¹⁶ No topo de um desses documentos, encontra-se a seguinte anotação: “Tenho lido cuidadosamente sobre isso, e o tenho aceitado.”¹⁷ Algumas dessas declarações foram divulgadas de diversas maneiras. A escritora arcou com os custos de publicação das chapas de O Desejado de Todas as Nações e de outras obras. Além disso, após a publicação da primeira edição de O Desejado de Todas as Nações, ela fez correções na segunda edição. O nível de veracidade de suas declarações é considerável, e os editores têm dificuldade em sustentar que ela não tenha escrito as afirmações publicadas.

Os adventistas do sétimo dia acreditam que Ellen White recebeu o dom profético. Suas declarações exerceram uma influência considerável no desenvolvimento da compreensão adventista da Trindade, especialmente ao apoiar a natureza eterna e original de Jesus, além da plena divindade e personalidade do Espírito Santo. No entanto, as doutrinas adventistas se baseiam na autoridade das Escrituras. Ellen White entendia que sua função profética era guiar um povo a reconhecer a Bíblia como autoridade suprema e base de toda fé e prática.¹⁸

Em várias situações, ela definiu a relação entre seus escritos e a Bíblia. Em uma de suas afirmações mais fascinantes, ela descreveu seu ofício profético: “Eu tenho uma obra de grande responsabilidade para fazer – comunicar por escrito e de viva voz as instruções a mim concedidas, não somente para os adventistas do sétimo dia, mas para o mundo. Publiquei muitos livros, grandes e pequenos, e alguns deles foram traduzidos para várias línguas. Esta é minha obra: revelar para outras pessoas as Escrituras, assim como Deus a mim as revelou.”¹⁹

Temos uma visão bíblica mais abrangente sobre o Espírito Santo devido aos escritos de Ellen White. Devemos agradecer a Deus por nos ter guiado ao longo da história da igreja para construir uma compreensão bíblica, por meio da atuação do Espírito Santo no dom de profecia.

MERLIN BURT é diretor do Patrimônio Literário de Ellen G. White, em Silver Spring, EUA

Referências

¹ Ellen Harmon, Day Star, 14/3/1846, p. 7.

² James White, Review and Herald, 11/12/1855, p. 85.

³ Ellen G. White, Primeiros Escritos (CPB, 2022), p. 38.

⁴ Ellen G. White, Carta ao irmão Chapman, 11/06/1891, em Manuscript Releases (White Estate, 1990), v. 14, p. 175, 179.

⁵ Ellen G. White, Manuscript Releases (White Estate, 1993), v. 20, p. 323, 324.

⁶ Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 540.

⁷ Por exemplo, Ellen G. White, Filhas de Deus (CPB, 2024), p. 183-185.

⁸ Ellen G. White, Carta 119, 1895.

⁹ H. C. Lacey a W. C. White, 17/07/1936 (Center for Adventist Research, Andrews University).

¹⁰ Ellen G. White, Signs of the Times, 03/04/1884, p. 209.

¹¹ Ellen G. White, Review and Herald, 25/08/1891, p. 529.

¹² White, O Desejado de Todas as Nações, p. 128.

¹³ Ellen G. White, Parábolas de Jesus (CPB, 2022), p. 35.

¹⁴ White, O Desejado de Todas as Nações, p. 423.

¹⁵ Tim Poirier, Ellen G. White's Trinitarian Statements, Manuscrito 93,1893; Manuscrito 57, 1900; Manuscrito 20, 1906; Manuscrito 21, 1906.

¹⁶ Carta 8, 1896; Manuscrito 27a, 1900; Manuscrito 57, 1900; Manuscrito 20, 1906; Manuscrito 21, 1906.

¹⁷ Manuscrito 20, 1906.

¹⁸ Ellen G. White, A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White (1851), p. 64.

¹⁹ Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 8, p. 194.

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