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sábado, 29 de agosto de 2026

Mais que um contrato

 

Mais que um contrato

Pags. 14 a 17

O casamento à luz da teologia bíblica da aliança

FABRÍCIO FERREIRA MELLO 


O casamento e a família são instituições criadas por Deus e imprescindíveis para o bem-estar e a felicidade do ser humano. No entanto, a sociedade contemporânea tem lançado cada vez mais descrédito sobre o matrimônio. É comum encontrar pessoas frustradas aconselhando jovens a evitar o casamento. As razões para essa insatisfação podem ser variadas, mas, em geral, aplica-se a máxima de que uma pessoa ferida tende a ferir outras. Alguém infeliz no casamento costuma associar suas experiências negativas à própria instituição matrimonial. Além disso, as mudanças sociais ocorridas no mundo ocidental desde meados do século 20 também ajudam a explicar as frequentes tentativas de desconstruir a família.

A passagem do século 19 para o 20 refletiu a herança do Iluminismo, ao mesmo tempo que incorporou novas correntes críticas. Nesse cenário, o Positivismo de Auguste Comte teve influência significativa, ainda que não exclusiva, sobre o pensamento ocidental. Esse período histórico ficou conhecido como Idade Moderna. Uma característica fundamental do modernismo é a confiança na razão humana e no desenvolvimento científico para responder às grandes questões da humanidade. Como reação aos trágicos eventos das primeiras décadas do século passado, como as duas guerras mundiais, por exemplo, a sociedade modernista reformulou, ainda que não tenha abandonado, seus ideais unificadores e de tendência universalizante. Nesse contexto, a esperança positivista contribuiu para investir a universidade de autoridade, colocando-a, ao lado da igreja e do casamento, entre as grandes instituições norteadoras da dinâmica social.

Porém, os filósofos da modernidade não consideraram, em suas aspirações, o elemento deteriorante presente em toda a humanidade: o pecado. A partir da segunda metade do século 20, as gerações emergentes, reagindo às diversas incoerências do modernismo, passaram a questionar e até mesmo abandonar muitos dos valores das gerações anteriores. Essa postura resultou em uma deslegitimação das grandes instituições e de seus discursos como elementos estruturantes da sociedade.¹ Assim, começaram a ruir os alicerces modernistas e, sobre seus edifícios filosóficos estremecidos, teve início o período conhecido como pós-modernismo.

“A cultura pós-moderna é profundamente desconfiada de todas as grandes histórias completas. [...] O ethos pós-moderno insiste que histórias como essas, que moldaram nossa vida de forma tão significativa, não são histórias de emancipação e progresso, mas histórias de escravização, opressão e violência. E, segundo essa perspectiva, qualquer narrativa ou cosmovisão que faça grandes afirmações a respeito do rumo e do destino real da história será vista como pertencente à mesma categoria de tal violência e opressão. Acredito que essa característica da mudança pós-moderna é a mais desafiadora para a fé cristã. Se há algo que define muito bem o cristianismo é uma história grandiosa e completa.²

Nesse contexto, o conceito de aliança matrimonial heterossexual e monogâmica parece estar desaparecendo. “Nossa sociedade vive apenas de contratos rescindíveis, dos negócios ao casamento.”³ Como podemos, portanto, impedir que o ceticismo e a cultura pós-moderna moldem a identidade das novas gerações, especialmente no que diz respeito ao casamento e à família? Compreender o significado do matrimônio na Bíblia é fundamental.

TEOLOGIA DA ALIANÇA

Nas Escrituras, o tema da aliança está relacionado à união que o próprio Deus estabeleceu com a humanidade. “A palavra em hebraico para aliança, berit, refere-se a um relacionamento legalmente obrigatório firmado entre duas partes.”⁴ Em Oseias 6:7 encontramos uma repreensão que compara a quebra da aliança por parte do povo, no período do profeta, com a infidelidade de Adão, sugerindo a ideia de uma ruptura da aliança no Éden. Além disso, Jeremias 33:20 usa uma linguagem que ecoa o relato da criação ao se referir à "Minha aliança com o dia e a Minha aliança com a noite". Por isso, é possível afirmar que a primeira aliança foi feita com Adão. A Bíblia também menciona alianças estabelecidas com Noé, Abraão, Moisés e Davi, além de anunciar a Nova Aliança.

No drama do grande conflito, “Abraão surge na estrutura do Gênesis como a resposta para a situação terrível de toda a humanidade. A sucessão de desastres e da 'maldição', de Adão até Babel, passando por Caim e pelo dilúvio, começa a ser anulada quando Deus chama Abraão e diz: 'Em você todas as famílias da terra serão abençoadas.”⁵ A aliança com Abraão é particularmente significativa, pois o relacionamento entre Deus e o patriarca pode ser comparado a um casamento: as promessas de Gênesis 12 funcionam como um noivado ou compromisso, enquanto a formalização da aliança no capítulo 15 e sua confirmação no capítulo 17 correspondem aos votos de uma aliança matrimonial. Outro aspecto a ser destacado na aliança com Abraão é a expressão karat berit, usada em Gênesis 15:18. Essa expressão significa literalmente “cortar uma aliança” e fazia parte dos contratos legais celebrados no Antigo Oriente Médio. “Já no século 18 a.C., essas alianças internacionais incluíam confirmações religiosas que envolviam a morte e o corte em pedaços de animais sacrificais, visando ao estabelecimento de alianças. [...] Um elemento comum era o uso das seguintes palavras ritualísticas: 'Da mesma forma que este animal é retalhado, que X também seja retalhado.' A pessoa que pronunciava essa frase declarava, assim, que o que havia acontecido com o animal aconteceria com ela caso quebrasse as obrigações referentes ao tratado.”⁶

METÁFORA ESPIRITUAL

O caráter sagrado e permanente da relação entre Cristo e Sua igreja é representado pela união matrimonial. Ellen White afirmou: "O Senhor uniu a Si o Seu povo por meio de um concerto solene, prometendo-lhe ser o seu Deus, enquanto o povo se comprometia a ser unicamente Dele. Disse o Senhor: 'Eu Me casarei com você para sempre; Eu Me casarei com você com justiça e retidão, com amor e compaixão' (Oseias 2:19, NVI). E em outra passagem: ‘Eu é que sou o esposo de vocês' (Jeremias 3:14). E Paulo empregou a mesma figura no Novo Testamento, quando escreveu: 'Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a Ele como uma virgem pura' (2 Coríntios 11:2, NVI). A infidelidade da igreja para com Cristo, permitindo que sua confiança e afeição se desviem Dele e consentindo que o amor às coisas mundanas ocupe o coração, é comparada com a quebra do voto conjugal.”⁷

O costume de firmar alianças por meio de cerimônias que comprometiam a vida de quem jurasse era comum nos tempos bíblicos. Contudo, é interessante analisar os elementos constituintes desses tratados e observar que nossa cultura absorveu alguns deles e os adaptou. Pelo menos três elementos presentes nas alianças bíblicas permanecem em nossas cerimônias de casamento: juramentos, objetos memoriais e testemunhas.

Hebreus 6:13 a 17 registra o juramento de Deus na aliança com Abraão: "Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por Si mesmo, dizendo: ‘Certamente Eu o abençoarei e multiplicarei os seus descendentes.' E assim, depois de esperar com paciência, Abraão obteve a promessa. Porque as pessoas juram pelo que lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, põe fim a toda discussão. Por isso, Deus, quando quis mostrar com mais clareza aos herdeiros da promessa que o Seu propósito era imutável, confirmou-o com um juramento.”

De igual modo, um casal de noivos, na presença de parentes e amigos, sob a ministração de um pastor ordenado, deve jurar fidelidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.

O matrimônio é algo sério, com implicações legais e espirituais

Outro elemento dos antigos pactos são os objetos memoriais. A Bíblia registra ocasiões em que alianças eram firmadas e acompanhadas de um memorial. O sábado é um memorial da aliança no Éden, assim como o arco no Céu recorda a aliança com Noé. Em Gênesis 21, Abraão deu ovelhas e bois a Abimeleque, ratificando uma aliança entre eles. Além disso, em 1 Samuel 18:3 e 4, Jônatas entregou sua capa, armadura e espada a Davi como sinal da aliança entre ambos. No Brasil e muitas partes do mundo, os anéis dourados trocados pelos noivos também funcionam como objetos memoriais. Em nossa cultura, essa ligação é tão forte que esses anéis são chamados de alianças de casamento.

As testemunhas, assim como acontece em nossos dias, também desempenhavam papel importante nos tratados dos povos antigos. Em Deuteronômio 30:19, Deus “toma os céus e a Terra por testemunhas” da aliança; em Gênesis 23:12 a 18, Abraão convoca testemunhas para a compra do campo de Macpela; e em Rute 4:9 e 10, Boaz recorre à lei do levirato na presença de testemunhas.

Portanto, "a ideia de aliança está intimamente associada ao casamento. Uma aliança é uma promessa solene e obrigatória, um acordo de importância abrangente entre indivíduos, grupos ou nações”.⁸ Tratando-se do casamento, é possível dizer que “a aliança matrimonial é dupla, pois não se restringe aos cônjuges entre si, mas é também um pacto entre o casal e Deus".⁹

O matrimônio é algo sério, com implicações legais e espirituais. Aqueles que decidem formar uma nova família devem assumir esse compromisso conscientes de que precisarão dedicar inteiramente sua vida para que o contrato de casamento não seja violado. Contudo, mais do que a manutenção de um acordo legal, Deus deseja proporcionar ao ser humano completude, segurança, proteção e felicidade plena.

FABRÍCIO FERREIRA MELLO é pastor no Rio de Janeiro

Revista Adventista - Maio 2026 - Pags. 14 - 17

Referências

¹ Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna (José Olympio, 2009), p. 69.

² Peter J. Gentry e Stephen J. Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus (Vida Nova, 2021), р. 134, 135.

³ Luciano Subirá, O Propósito da Família (Orvalho, 2020), p. 72.

⁴ Skip MacCarty, O DNA das Alianças (CPB, 2021), p. 14.

⁵ Gentry e Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus, p. 135.

⁶ Hans K. LaRondelle, Nosso Criador Redentor (Unaspress, 2016), p. 1.

⁷ Ellen G. White, O Grande Conflito (CPB, 2021), p. 324, 325.

⁸ Frank M. Hasel, "O Conceito Bíblico de Casamento", em Ekkehardt Mueller e Elias Brasil de Souza (orgs.), Casamento (CPB, 2015), p. 53.

⁹ Rinaldo L. S. Pereira, Unidos Pelo Casamento (Mundo Cristão, 2014), р. 51.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Quando Findará "Esta Geração"?

 

Quando Findará "Esta Geração"?

Pag. 1

Ao estudar o sentido das palavras "esta geração", devemos ter em mente que qualquer especulação quanto ao tempo de uma geração, ou a uma data certa para seu começo e fim, aproxima-se de fixação de tempo para a vinda de Cristo, e contra isto somos advertidos. Podemos no entanto saber com certeza, pelo que vemos, ao compará-lo com as declarações bíblicas, que vivemos na referida geração; e quão maravilhosamente claro é que estamos agora no tempo que Jesus e os profetas indicaram!

Chegámos ao ponto culminante na profecia. Todos os sinais são agora evidentes por toda parte. Os "gentios" têm despertado. Aos que lerem e entenderem, Deus mostra que está preparado para cumprir Sua palavra. Está prestes a levar Seus filhos para o lar. Lembremo-nos, porém, de que o grande e finalizador sinal é a pregação da mensagem a todo o mundo.

Disse Cristo: "Este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim". É este o sinal que a todos sobreleva; o elemento que determina quando finda

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Mudança Necessária

 

Mudança Necessária

Pag. 1

"PELAS quais Éle nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina." (II S. Ped. 1:4.)

Por natureza somos pecadores. Herdámos natureza carnal, a qual "não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser." (Rom. 8:7.) Pecámos todos, e, em nossa natureza carnal, destituídos estamos da glória de Deus. Nosso coração é, inerentemente, frio e negro. Estalamos e rachamos até que finalmente quebramos e nos desagregamos. Nessa condição estamos sem Cristo, "não tendo esperança, e sem Deus no mundo." (Efés. 2:12.)

Nossa natureza carnal pode ser comparada ao ferro negro, frio e duro. Podemos malhar por muito tempo o ferro frio, mas êle se não unirá de novo caso se haja partido. Precisa ser aquecido antes de ser caldeado. Não somente deve o ferro ser pôsto no fogo, mas êste precisa entrar no ferro. Então pode êle ser caldeado numa só peça e ser tão forte como si nunca se houvesse quebrado. Ao ser o ferro pôsto no fogo, e ao entrar o fogo nele, a natureza do ferro é transformada. Então, não é mais negro, mas vermelho; não mais frio, mas quente; não mais duro, mas macio e maleável.

De igual maneira sucede conosco. Nossa natureza, também, precisa ser mudada. Precisamos estar em Cristo, e Cristo em nós, até que Seu amor nos aqueça o frio coração ao ponto de fusão. Nisso consiste a prova crucial. O pecado e os ódios separam-nos, mas o amor de Cristo nos une de novo. Assim, o amor é o remédio. É-nos possível tornar-nos participantes da natureza divina. Disse Jesús: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, si vos amardes uns aos outros." (S. João 13:35.) Ao entrar o amor, nossa natureza é transformada, e somos caldeados numa grande família divina.

N. P. NEILSEN


Revista Adventista - Fevereiro 1940 - pg. 1

Alicerces da fé

 

Alicerces da fé

Pag. 2

Elementos que moldam a identidade adventista

WELLINGTON BARBOSA

Como você define o termo identidade? De acordo com o dicionário, entre outros significados, a palavra indica o “conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível individualizá-la”.¹ Se aplicarmos essa definição à Igreja Adventista do Sétimo Dia, quais seriam as “características e circunstâncias” que tornam nossa denominação distinta?

Ao longo do tempo, a resposta a essa pergunta parece ter variado em diferentes contextos, à medida que alguns buscaram tornar o adventismo mais flexível, a fim de aproximá-lo de outros movimentos religiosos. Embora seja necessário encontrar pontos de similaridade com outras formas de pensamento para estabelecer um diálogo inicial, comprometer quem somos nesse processo é contraprodutivo e arriscado. A experiência mostra que essa estratégia, além de não atrair quem pensa de maneira diferente de nós, tem o potencial de levar membros da igreja para os movimentos que tentamos alcançar.

Em realidade, ter uma visão clara de quem somos e viver de modo coerente com nossa profissão de fé é crucial para que a igreja cumpra a missão que lhe foi designada por Deus. Por isso, é necessário reafirmar continuamente quais são os fundamentos espirituais, comunitários, históricos e missiológicos que definem quem é o povo do advento.

No centro de nossa identidade encontra-se a verdade revelada na Palavra de Deus. Conforme escreveu Frank Hasel, “ela é a pedra angular de nossas crenças; é a luz que orienta nossa teologia; é o roteiro para nosso estilo de vida. Ela é a base sobre a qual nossa fé é construída, e seus ensinamentos moldam nossa compreensão de quem somos como seres humanos. Ela nos fala sobre Deus e Sua salvação. Por isso, a Bíblia ocupa um lugar único e central no coração dos adventistas do sétimo dia”.²

Entretanto, nossa identidade não se sustenta apenas teologicamente, mas também em sua expressão comunitária, a igreja. Pertencer a uma congregação saudável, na qual as Escrituras são pregadas, os cultos são inspiradores, as pessoas são acolhidas, os dons são desenvolvidos e o discipulado é intencional fortalece a fé, aprofunda vínculos e torna visível aquilo que cremos.

Além disso, não podemos ignorar a importância de nossa história como elemento constitutivo da identidade. O adventismo segue o legado dos reformadores na busca sincera pela verdade e na convicção do chamado para restaurar a fé apostólica. O processo árduo e desafiador pelo qual nossos pioneiros passaram para que a igreja estabelecesse uma estrutura teologicamente consistente, organizacionalmente sólida, financeiramente sustentável e eficientemente voltada para a missão deve ser valorizado como algo precioso que orienta nosso presente e ajuda a direcionar nosso futuro.

Finalmente, o engajamento na missão não pode ser dissociado da identidade adventista. Somos um movimento profético que reconhece o chamado para ser o remanescente do tempo do fim, com o objetivo de convidar pessoas de todas as nações, tribos, línguas e povos a adorar o Criador, a viver à luz do evangelho eterno e a se preparar para a vinda iminente do Senhor.

Identidade clara e vida coerente são essenciais para cumprir a missão

Portanto, quando permanecemos comprometidos com a Palavra, fortalecidos pela comunhão da igreja, conscientes de nossa história e dedicados à missão, encontramos não apenas clareza sobre quem somos, mas também direção para onde devemos ir. E acima de tudo, a certeza de quem vai à nossa frente.

Maranata!

WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista

Referências

¹ Dicionário Houaiss, "Identidade", https://houaiss.online/houaisson/.

² Frank Hasel, "Nosso Alicerce: A Bíblia", em Artur A. Stele, Comprometidos com Nossa Identidade (CPB, 2025), p. 38.


Revista Adventista - Maio 2026 - Pg 03

terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Brincadeira" que machuca

 

"Brincadeira" que machuca

Pags. 18 e 19

Como identificar e evitar a prática do bullying

THAIS SOUZA

Caio costuma fazer seus trabalhos sozinho ou com o último grupo a se formar, pois, sempre que pede permissão para se juntar a alguém, é evitado e excluído. Sara apagou a foto que havia publicado em suas redes sociais depois de uma "chuva" de comentários maldosos sobre sua aparência. No entanto, não pôde controlar o compartilhamento de memes e mensagens sarcásticas. Fernando sente dores de cabeça e frequentes desconfortos abdominais antes de ir à escola. Ele prefere chegar atrasado a ser pontual e ser recebido com empurrões e apelidos pelo grupo que o espera na entrada do portão.

O bullying não é um episódio isolado ou simplesmente um dia ruim em que “pegaram no seu pé”. Trata-se de uma experiência repetitiva, silenciosa e desgastante, que nem sempre deixa marcas visíveis, pois vai além da violência física.

Apelidos pejorativos, exclusões intencionais, críticas depreciativas, humilhações públicas, intimidações físicas e difamações costumam ser agressões constantes, provocadas com o único objetivo de causar dano à vítima.

Esse cenário, muitas vezes, é facilitado pelo desequilíbrio de poder entre quem agride e quem sofre o bullying, seja por questões físicas (um mais forte do que o outro), sociais (maior popularidade ou posição de “líder de turma”), psicológicas (maior habilidade verbal ou persuasiva) ou até digitais (maior conhecimento tecnológico e alcance nas redes, o que favorece o cyberbullying). As consequências são inevitáveis e, por vezes, devastadoras. Tendo em vista o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, celebrado em 7 de abril, este infográfico busca ampliar a conscientização e fortalecer ações preventivas.

THAIS SOUZA é psicóloga clínica

BULLYING NO BRASIL

Um em cada quatro meninos e uma em cada seis meninas admitem praticar bullying.

74% dos casos envolvem xingamentos, apelidos pejorativos e humilhações verbais.

COMO AJUDAR

1. Pratique a escuta ativa, permitindo que a criança ou o adolescente fale com liberdade sobre o que está enfrentando, sem minimizar o que sente.
2. Busque informações detalhadas sobre o que vem acontecendo. Isso pode ser feito por meio de conversas frequentes com ele, do relato de outras pessoas e da colaboração da escola, caso o bullying ocorra nesse ambiente.
3. Acione a escola, comunicando formalmente o que tem acontecido. Leve registros (datas, nomes, prints), converse sobre um plano de ação concreto e acompanhe os desdobramentos.
4. Ensine seu filho sobre a diferença entre se defender e reagir. A reação costuma ser agressiva; ele pode aprender a dar respostas assertivas e a manter uma postura corporal segura.

Fontes: Dados da Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE, 2015 e 2019) e de estudos epidemiológicos nacionais (link.cpb.com.br/164c58; link.cpb.com.br/9443a2).

As razões mais citadas para sofrer bullying são:

Aparência do corpo.

Aparência facial.

Cor ou raça.

REFLEXOS NA VIDA ACADÊMICA

* Queda no rendimento escolar.

* Dificuldade de concentração.

* Faltas e/ou atrasos frequentes.

* Desmotivação em relação aos estudos.

* Desejo de mudar de escola.

* Sintomas físicos recorrentes, sem causa médica aparente, antes ou durante a permanência na escola.

O QUE A VÍTIMA PODE FAZER

* Conte primeiramente aos seus pais o que está acontecendo.

* Não reaja com agressividade; mantenha uma postura firme e respeitosa em relação a si mesmo.

* Afaste-se quando as humilhações começarem.

* Permaneça próximo de colegas que sejam amigáveis.

* Não se culpe; ninguém merece ser humilhado. O erro é de quem agride, não de quem sofre.

* Caso a violência esteja ocorrendo na internet (cyberbullying), guarde evidências antes de excluir o conteúdo, além de bloquear e denunciar os perfis envolvidos.

IMPACTO EMOCIONAL

A vítima passa a viver em estado constante de ansiedade e medo.

Perde a naturalidade e a espontaneidade, devido ao receio do que possa acontecer.

Demonstra instabilidade emocional, com irritabilidade, tristeza, vergonha e raiva manifestando-se de forma alternada e frequente.

Desenvolve fobia social e tende ao isolamento.

Apresenta dificuldade em confiar nas pessoas.

Revela baixa autoestima.

5. Reforce a autoestima, incentivando atividades nas quais ele se sinta competente, fazendo elogios sinceros e reafirmando seu valor.
6. Conheça os sites e as redes sociais que seu filho acessa. Estabeleça regras, limites, horários e critérios quanto aos conteúdos adequados.
7. Fique atento aos sinais de alerta: evitar frequentemente ir à escola, queda no rendimento, isolamento e mudanças bruscas de humor são indícios importantes para buscar apoio psicológico.

Revista Adventista - Abril 2026 - Pg. 18,19

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