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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

DO PENTECOSTES À ERA DIGITAL

 

DO PENTECOSTES À ERA DIGITAL

Pags. 20, 21 e 22

Deus continua removendo barreiras para que o evangelho alcance toda língua, tribo e nação

FERNANDO RIOS 


É madrugada. O quarto está escuro, iluminado apenas pela luz do celular. Um jovem na Ásia Central desliza o dedo pela tela em busca de respostas para perguntas existenciais profundas. Em sua cidade, não há presença adventista nem igrejas cristãs para visitar. Sua família segue outra religião e não compreenderia suas inquietações. Mas ele tem acesso à internet.

O rapaz abre o navegador e digita, em inglês: Por que Deus permite o sofrimento? Entre os resultados, escolhe um vídeo cujo título foi traduzido automaticamente para sua língua. O pregador está a milhares de quilômetros, mas as legendas tornam a mensagem compreensível. Ao fim, um link o convida para um estudo bíblico on-line. Ele clica e inicia uma conversa com alguém do outro lado do mundo.

Meses depois, ainda sem templo, ele se ajoelha ao lado da cama e ora pela primeira vez, entregando a vida a Cristo. Nenhuma igreja viu, nenhum pastor esteve presente, mas o Céu registrou.

Histórias como essa têm se repetido em diversos países onde o evangelismo digital alcança pessoas sem acesso a congregações locais. Como pastor, já ouvi relatos semelhantes: indivíduos que tiveram o primeiro contato com a mensagem por meio de uma postagem ou transmissão on-line. Em muitos casos, a porta de entrada não foi o templo, mas a tela.

Desde o Pentecostes, o Espírito Santo tem removido barreiras para que o evangelho seja compreendido. O Senhor demonstra profundo compromisso com a comunicação. Ele fala, Se revela e Se comunica para anunciar a mensagem da salvação.

A promessa da vinda de Jesus está diretamente ligada à proclamação das boas-novas ao mundo. Cristo declarou: “E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mateus 24:14). Essa missão não é opcional; trata-se da condição profética para o desfecho da história.

MISSÃO ONTEM E HOJE

No ano 100 d.C., o mundo tinha cerca de 200 milhões de habitantes. A igreja cristã representava menos de 0,5% da população. A comunicação era oral; a alfabetização, limitada; e as Escrituras estavam disponíveis em poucos idiomas.

Hoje, somos mais de 8 bilhões de pessoas. Mais de 7 mil idiomas são falados, e milhares ainda não têm acesso às Escrituras. Na chamada Janela 10/40, bilhões vivem com pouco ou nenhum contato com o evangelho. A Igreja Adventista mantém, em média, um membro para cada 350 habitantes.¹

Humanamente, a missão ainda parece desproporcional aos recursos. Mas algo mudou. Vivemos em uma era na qual mais de 6 bilhões de pessoas utilizam a internet, e a maioria carrega no bolso um dispositivo com acesso global. Nunca houve tamanho desafio missionário – nem tamanho potencial comunicacional!

Em Atos 2, encontramos um dos eventos mais marcantes do cristianismo: "Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas" (v. 4). Pessoas de diversas regiões ouviram o evangelho em seus próprios idiomas.

O dom de línguas não era um fim em si mesmo, mas um meio. O Espírito removia uma barreira, a linguagem, para que a missão avançasse. Ele era o agente; a linguagem, o instrumento. Assim se estabelece um princípio: quando a missão encontra uma barreira, o Espírito Santo providencia meios para superá-la.

Ao longo da história, Deus utilizou diferentes recursos para expandir a proclamação do evangelho: as estradas romanas, o códice, a imprensa, o rádio, a televisão e a aviação. Em cada época, os meios disponíveis foram empregados para ampliar o alcance da mensagem. Hoje, vivemos outra transformação significativa.

Pela primeira vez, a humanidade está conectada em tempo real. Distâncias que antes exigiam meses de viagem agora são percorridas em segundos. Culturas antes isoladas compartilham o mesmo espaço digital.

A comunicação deixou de depender da proximidade física e passou a operar em escala global. A tecnologia não criou a missão, mas transformou profundamente o ambiente em que ela acontece. Se, no passado, o desafio era atravessar territórios físicos, atualmente é ocupar espaços digitais, em que bilhões de pessoas buscam sentido, identidade e respostas espirituais.

Durante séculos, missionários cruzaram oceanos, enfrentaram perseguições e viveram em condições extremas para compartilhar o evangelho. Hoje, a mesma mensagem pode ser transmitida em segundos. Ainda há aqueles chamados a ir presencialmente. Mas também há os chamados a alcançar onde o acesso é restrito, por meio do digital. A tecnologia não converte, mas amplia a voz.

NOVAS GERAÇÕES

As novas gerações estão imersas no ambiente digital. A maioria dos jovens está conectada diariamente, e grande parte de suas interações ocorrem na virtualidade.

Se há um grupo especialmente preparado para liderar o evangelismo digital, são os jovens. Os chamados “nativos digitais" possuem familiaridade com ferramentas que muitos ainda estão aprendendo a usar. Essa habilidade, quando consagrada, pode transformá-los em missionários de grande impacto.

Atualmente, um jovem com um smartphone possui mais alcance potencial do que tinha um missionário há um século. No entanto, o fator decisivo não é a tecnologia, mas o caráter. Não é necessário ser influenciador para ser eficaz. O essencial é espiritualidade, autenticidade, compromisso e intencionalidade ao testemunhar de Cristo. Como afirmou Ellen White, "todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como um missionário”,² tanto no ambiente real quanto no digital.

O evangelismo digital pode assumir várias formas:

- Compartilhar conteúdos bíblicos e mensagens de esperança nas redes sociais;

- Produzir vídeos, podcasts ou materiais criativos que comuniquem a fé;

- Oferecer estudos bíblicos e acompanhamento on-line;

- Apoiar projetos digitais da igreja;

- Ser uma presença cristã positiva no ambiente virtual.

Cabe ressaltar que a iniciativa OneVoice27, aprovada recentemente pela Igreja Adventista, visa alinhar toda a mídia denominacional global em um esforço evangelístico digital integrado até 2027. Entre os pilares desse projeto, destaca-se "juventude e influência digital", reconhecendo-se que os jovens influenciadores podem ampliar o alcance da mensagem.

EQUILÍBRIO NECESSÁRIO

Apesar de sua abrangência, o evangelismo digital não substitui o contato humano. A encarnação continua sendo o modelo missionário. Cristo veio em forma humana, demonstrando a importância do relacionamento.

O evangelismo digital abre portas, mas o discipulado se desenvolve plenamente em comunidade. Por isso, é importante manter o equilíbrio: usar o digital como ponte, não como destino. O alvo deve ser conectar pessoas à experiência comunitária da fé.

Nos primórdios da igreja, Deus concedeu dons para dar início à expansão do evangelho. Hoje, Ele continua provendo meios para que essa missão alcance sua plenitude. Assim como no Pentecostes o Espírito rompeu barreiras linguísticas, agora Ele atua em um mundo no qual fronteiras geográficas e culturais são continuamente redefinidas. Ainda assim, é preciso afirmar com clareza: nenhum recurso substitui o poder do Espírito Santo. A tecnologia pode ampliar o alcance da pregação, mas somente Deus transforma o coração humano.

Por isso, mais importante do que dominar ferramentas é viver em consagração. O êxito do evangelismo digital não reside na técnica, mas na presença de Deus, na oração e na centralidade de Cristo. Podemos avançar com confiança: o mesmo Espírito que capacitou a igreja no passado permanece ativo. A promessa continua válida: o evangelho será pregado a todo o mundo. E Deus, como sempre, seguirá removendo barreiras para que toda língua, tribo e nação tenha a oportunidade de ouvir Sua voz.

Nossa missão é descrita simbolicamente em Apocalipse 14:6 como um anjo voando pelo meio do céu, levando o evangelho "eterno para pregar aos que habitam na Terra, e a cada nação, tribo, língua e povo” (Apocalipse 14:6). De fato, podemos “voar” por meio de satélites e fibras ópticas, iluminando cada canto com a gloriosa luz da verdade.

Cada membro da igreja, especialmente os jovens, pode atender a esse chamado, tornando-se um missionário digital: um portador de esperança nas redes sociais e nos ambientes virtuais, onde quer que haja pessoas a serem alcançadas. E o mesmo Espírito que iniciou essa obra é fiel para conduzi-la até o fim!

FERNANDO RIOS é presidente da Igreja Adventista para o estado de Goiás

Referências

¹ Office of Archives, Statistics and Research, Annual Statistical Report 2025, disponível em https://documents.adventistarchives.org/Statistics/ASR/ASR2025.pdf?gl=11ilnw26gaMTYzMzg3NjAzMC4xNzU2MTUzOTY5ga2VBYH6KEBQ*czE3NzQ5ODY0MDIkbzlkZzEkdDE3NzQ5ODY0MTMkajQ5JGwwJGgxODEzODQ2NDkx.

² Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 146.


Revista adventista - Maio 2026. Pg. 20 - 22

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domingo, 30 de agosto de 2026

ORGANIZANDO A CASA

 

ORGANIZANDO A CASA

Pag. 14

Mas por que fazemos planos se não conseguimos agir? Segundo Ferrari, a procrastinação está ligada também à nossa baixa autoestima e insegurança. E, por causa delas, acabamos adiando para evitar o medo de não termos o sucesso esperado em alguma tarefa.

Segundo o consultor executivo David Allen, autor do livro A Arte de Fazer Acontecer (Sextante, 2016), a produtividade nos torna mais eficientes e mais tranquilos. O livro traz uma explicação detalhada de como podemos organizar nossa agenda de maneira inteligente.

Organizar a vida tem que ver com planejamento e autoanálise. Quais atitudes repetitivas você consegue identificar que estão consumindo seu tempo e fazendo você deixar de realizar outras tarefas importantes? Ter clareza disso será o primeiro passo. O segundo é começar devagar.

"Para mudar hábitos ruins começamos com pequenas ações. É como uma academia. No começo você levanta somente uma barra sem peso nenhum, apenas para treinar o exercício, para criar o hábito e a coordenação do movimento. Com o passar do tempo, você conseguirá levantar 20 ou 30 kg de cada lado. [...] Muitas pessoas querem mudar de vida da noite para o dia. Elas superestimam o que podem fazer numa semana e subestimam o que podem fazer num ano. Isso desanima e gera frustração."


Revista Adventista. - Janeiro 2020 - Pg. - 14

A ESPERANÇA TRIUNFANTE (VOLTA DE JESUS)

 A ESPERANÇA TRIUNFANTE (VOLTA DE JESUS)

 

Apocalipse 10:5-11

 

A esperança da volta de Cristo tem alimentado a fé do povo de Deus, em todos os tempos e lugares.

Desde que Cristo foi assunto ao céu que seus seguidores tem sido confortados com esta esperança.

Por causa da demora, tempos houve, em que esta esperança quase foi perdida de vista, principalmente quando heresias surgiram ensinando que Jesus não mais voltaria literalmente. E que está promessa, era apenas uma parábola que representava a morte do crente e o encontro do Espírito deste com Deus.

Apesar desta e de outras heresias, sempre houve os fiéis servos de Deus, que aguardavam a volta do nosso Salvador, nas nuvens dos céus, para busca-los.

Depois do primeiro século, período da Igreja Primitiva, o tempo que mais se pregou e aguardou o retorno de Jesus, foi o século passado. Foi no início do século passado que o livro de Daniel foi entendido pelos pregadores. Até então, este livro era um livro de um conteúdo totalmente fechado, e selado com 7 selos.

Daniel 12:4,9

Era lido, como os demais livros da Bíblia, mas não era entendido.

Porém, como por encanto, o seu conteúdo passou a ser entendido e aqueles que o liam, passaram a descobrir duas coisas.

1. Que haveria um juízo final. Daniel 7: 9-10.

2. Que o santuário seria purificado. Daniel 8:14.

Entenderam ainda, que o tempo da volta de Cristo para purificar o santuário estava prestes a acontecer. Pois segundo a profecia, isto se daria após 2300 anos da construção de Jerusalém por Zorobabel/Neemias/etc. E estes anos estavam terminando de passar e terminariam em 1844.

Esta descoberta, não foi feita por apenas um homem mas por diversos.

Em diferentes países, pregadores diferentes, de diferentes igrejas, passaram a pregar a mesma mensagem. Cristo está voltando.

É certo que diferiam em alguns pontos insignificantes, mas a essência era a mesma, a breve volta de Jesus.

Entre os muitos pregadores podemos citar alguns:

 

Apostila História da Igreja Págs. 7-9.

De todos os pregadores, o que mais se destacou foi Guilherme Miller.

Apostila História da Igreja Págs. 10-13.

O movimento cresceu.

Podemos afirmar que o movimento passou por oito passos diferentes. IDEM pág. 16.

Após este desapontamento, o movimento dividiu-se.

Muitos voltaram para suas igrejas originais.

Outros foram para o mundo.

Outros criaram outras seitas marcando outras datas e decepcionando-se em consequência.

Porém um grupo pequeno uniu-se em estudo da Bíblia e oração, procurando descobrir a verdade, porque Jesus não veio.

A este grupo foi revelado a verdade.

Descobriram que naquele dia Cristo começou o julgamento.

Hirã Edson teve a visão da purificação do santuário no céu.

Deste grupo surgiu a Igreja Adventista Do 7º Dia.

Portanto aquele movimento representa para igreja o que o 7 de setembro representa para o Brasil.

O desapontamento estava previsto.

1. O livro previsto era o livro de Daniel base das pregações.

2. O doce do livro era a alegria de breve ver Jesus voltar.

3. O amargor representava o desapontamento.

Ficava ainda a ordem:

“É necessário que pregues outra vez!”.

Eles começaram de novo.

Hoje, pregamos em mais de 200 países.

Hoje, sabemos que Jesus vai voltar breve.

Que esta esperança permaneça em nossos corações.

Amém.

sábado, 29 de agosto de 2026

Mais que um contrato

 

Mais que um contrato

Pags. 14 a 17

O casamento à luz da teologia bíblica da aliança

FABRÍCIO FERREIRA MELLO 


O casamento e a família são instituições criadas por Deus e imprescindíveis para o bem-estar e a felicidade do ser humano. No entanto, a sociedade contemporânea tem lançado cada vez mais descrédito sobre o matrimônio. É comum encontrar pessoas frustradas aconselhando jovens a evitar o casamento. As razões para essa insatisfação podem ser variadas, mas, em geral, aplica-se a máxima de que uma pessoa ferida tende a ferir outras. Alguém infeliz no casamento costuma associar suas experiências negativas à própria instituição matrimonial. Além disso, as mudanças sociais ocorridas no mundo ocidental desde meados do século 20 também ajudam a explicar as frequentes tentativas de desconstruir a família.

A passagem do século 19 para o 20 refletiu a herança do Iluminismo, ao mesmo tempo que incorporou novas correntes críticas. Nesse cenário, o Positivismo de Auguste Comte teve influência significativa, ainda que não exclusiva, sobre o pensamento ocidental. Esse período histórico ficou conhecido como Idade Moderna. Uma característica fundamental do modernismo é a confiança na razão humana e no desenvolvimento científico para responder às grandes questões da humanidade. Como reação aos trágicos eventos das primeiras décadas do século passado, como as duas guerras mundiais, por exemplo, a sociedade modernista reformulou, ainda que não tenha abandonado, seus ideais unificadores e de tendência universalizante. Nesse contexto, a esperança positivista contribuiu para investir a universidade de autoridade, colocando-a, ao lado da igreja e do casamento, entre as grandes instituições norteadoras da dinâmica social.

Porém, os filósofos da modernidade não consideraram, em suas aspirações, o elemento deteriorante presente em toda a humanidade: o pecado. A partir da segunda metade do século 20, as gerações emergentes, reagindo às diversas incoerências do modernismo, passaram a questionar e até mesmo abandonar muitos dos valores das gerações anteriores. Essa postura resultou em uma deslegitimação das grandes instituições e de seus discursos como elementos estruturantes da sociedade.¹ Assim, começaram a ruir os alicerces modernistas e, sobre seus edifícios filosóficos estremecidos, teve início o período conhecido como pós-modernismo.

“A cultura pós-moderna é profundamente desconfiada de todas as grandes histórias completas. [...] O ethos pós-moderno insiste que histórias como essas, que moldaram nossa vida de forma tão significativa, não são histórias de emancipação e progresso, mas histórias de escravização, opressão e violência. E, segundo essa perspectiva, qualquer narrativa ou cosmovisão que faça grandes afirmações a respeito do rumo e do destino real da história será vista como pertencente à mesma categoria de tal violência e opressão. Acredito que essa característica da mudança pós-moderna é a mais desafiadora para a fé cristã. Se há algo que define muito bem o cristianismo é uma história grandiosa e completa.²

Nesse contexto, o conceito de aliança matrimonial heterossexual e monogâmica parece estar desaparecendo. “Nossa sociedade vive apenas de contratos rescindíveis, dos negócios ao casamento.”³ Como podemos, portanto, impedir que o ceticismo e a cultura pós-moderna moldem a identidade das novas gerações, especialmente no que diz respeito ao casamento e à família? Compreender o significado do matrimônio na Bíblia é fundamental.

TEOLOGIA DA ALIANÇA

Nas Escrituras, o tema da aliança está relacionado à união que o próprio Deus estabeleceu com a humanidade. “A palavra em hebraico para aliança, berit, refere-se a um relacionamento legalmente obrigatório firmado entre duas partes.”⁴ Em Oseias 6:7 encontramos uma repreensão que compara a quebra da aliança por parte do povo, no período do profeta, com a infidelidade de Adão, sugerindo a ideia de uma ruptura da aliança no Éden. Além disso, Jeremias 33:20 usa uma linguagem que ecoa o relato da criação ao se referir à "Minha aliança com o dia e a Minha aliança com a noite". Por isso, é possível afirmar que a primeira aliança foi feita com Adão. A Bíblia também menciona alianças estabelecidas com Noé, Abraão, Moisés e Davi, além de anunciar a Nova Aliança.

No drama do grande conflito, “Abraão surge na estrutura do Gênesis como a resposta para a situação terrível de toda a humanidade. A sucessão de desastres e da 'maldição', de Adão até Babel, passando por Caim e pelo dilúvio, começa a ser anulada quando Deus chama Abraão e diz: 'Em você todas as famílias da terra serão abençoadas.”⁵ A aliança com Abraão é particularmente significativa, pois o relacionamento entre Deus e o patriarca pode ser comparado a um casamento: as promessas de Gênesis 12 funcionam como um noivado ou compromisso, enquanto a formalização da aliança no capítulo 15 e sua confirmação no capítulo 17 correspondem aos votos de uma aliança matrimonial. Outro aspecto a ser destacado na aliança com Abraão é a expressão karat berit, usada em Gênesis 15:18. Essa expressão significa literalmente “cortar uma aliança” e fazia parte dos contratos legais celebrados no Antigo Oriente Médio. “Já no século 18 a.C., essas alianças internacionais incluíam confirmações religiosas que envolviam a morte e o corte em pedaços de animais sacrificais, visando ao estabelecimento de alianças. [...] Um elemento comum era o uso das seguintes palavras ritualísticas: 'Da mesma forma que este animal é retalhado, que X também seja retalhado.' A pessoa que pronunciava essa frase declarava, assim, que o que havia acontecido com o animal aconteceria com ela caso quebrasse as obrigações referentes ao tratado.”⁶

METÁFORA ESPIRITUAL

O caráter sagrado e permanente da relação entre Cristo e Sua igreja é representado pela união matrimonial. Ellen White afirmou: "O Senhor uniu a Si o Seu povo por meio de um concerto solene, prometendo-lhe ser o seu Deus, enquanto o povo se comprometia a ser unicamente Dele. Disse o Senhor: 'Eu Me casarei com você para sempre; Eu Me casarei com você com justiça e retidão, com amor e compaixão' (Oseias 2:19, NVI). E em outra passagem: ‘Eu é que sou o esposo de vocês' (Jeremias 3:14). E Paulo empregou a mesma figura no Novo Testamento, quando escreveu: 'Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a Ele como uma virgem pura' (2 Coríntios 11:2, NVI). A infidelidade da igreja para com Cristo, permitindo que sua confiança e afeição se desviem Dele e consentindo que o amor às coisas mundanas ocupe o coração, é comparada com a quebra do voto conjugal.”⁷

O costume de firmar alianças por meio de cerimônias que comprometiam a vida de quem jurasse era comum nos tempos bíblicos. Contudo, é interessante analisar os elementos constituintes desses tratados e observar que nossa cultura absorveu alguns deles e os adaptou. Pelo menos três elementos presentes nas alianças bíblicas permanecem em nossas cerimônias de casamento: juramentos, objetos memoriais e testemunhas.

Hebreus 6:13 a 17 registra o juramento de Deus na aliança com Abraão: "Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por Si mesmo, dizendo: ‘Certamente Eu o abençoarei e multiplicarei os seus descendentes.' E assim, depois de esperar com paciência, Abraão obteve a promessa. Porque as pessoas juram pelo que lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, põe fim a toda discussão. Por isso, Deus, quando quis mostrar com mais clareza aos herdeiros da promessa que o Seu propósito era imutável, confirmou-o com um juramento.”

De igual modo, um casal de noivos, na presença de parentes e amigos, sob a ministração de um pastor ordenado, deve jurar fidelidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.

O matrimônio é algo sério, com implicações legais e espirituais

Outro elemento dos antigos pactos são os objetos memoriais. A Bíblia registra ocasiões em que alianças eram firmadas e acompanhadas de um memorial. O sábado é um memorial da aliança no Éden, assim como o arco no Céu recorda a aliança com Noé. Em Gênesis 21, Abraão deu ovelhas e bois a Abimeleque, ratificando uma aliança entre eles. Além disso, em 1 Samuel 18:3 e 4, Jônatas entregou sua capa, armadura e espada a Davi como sinal da aliança entre ambos. No Brasil e muitas partes do mundo, os anéis dourados trocados pelos noivos também funcionam como objetos memoriais. Em nossa cultura, essa ligação é tão forte que esses anéis são chamados de alianças de casamento.

As testemunhas, assim como acontece em nossos dias, também desempenhavam papel importante nos tratados dos povos antigos. Em Deuteronômio 30:19, Deus “toma os céus e a Terra por testemunhas” da aliança; em Gênesis 23:12 a 18, Abraão convoca testemunhas para a compra do campo de Macpela; e em Rute 4:9 e 10, Boaz recorre à lei do levirato na presença de testemunhas.

Portanto, "a ideia de aliança está intimamente associada ao casamento. Uma aliança é uma promessa solene e obrigatória, um acordo de importância abrangente entre indivíduos, grupos ou nações”.⁸ Tratando-se do casamento, é possível dizer que “a aliança matrimonial é dupla, pois não se restringe aos cônjuges entre si, mas é também um pacto entre o casal e Deus".⁹

O matrimônio é algo sério, com implicações legais e espirituais. Aqueles que decidem formar uma nova família devem assumir esse compromisso conscientes de que precisarão dedicar inteiramente sua vida para que o contrato de casamento não seja violado. Contudo, mais do que a manutenção de um acordo legal, Deus deseja proporcionar ao ser humano completude, segurança, proteção e felicidade plena.

FABRÍCIO FERREIRA MELLO é pastor no Rio de Janeiro

Revista Adventista - Maio 2026 - Pags. 14 - 17

Referências

¹ Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna (José Olympio, 2009), p. 69.

² Peter J. Gentry e Stephen J. Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus (Vida Nova, 2021), р. 134, 135.

³ Luciano Subirá, O Propósito da Família (Orvalho, 2020), p. 72.

⁴ Skip MacCarty, O DNA das Alianças (CPB, 2021), p. 14.

⁵ Gentry e Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus, p. 135.

⁶ Hans K. LaRondelle, Nosso Criador Redentor (Unaspress, 2016), p. 1.

⁷ Ellen G. White, O Grande Conflito (CPB, 2021), p. 324, 325.

⁸ Frank M. Hasel, "O Conceito Bíblico de Casamento", em Ekkehardt Mueller e Elias Brasil de Souza (orgs.), Casamento (CPB, 2015), p. 53.

⁹ Rinaldo L. S. Pereira, Unidos Pelo Casamento (Mundo Cristão, 2014), р. 51.

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